Existe um momento na vida em que percebemos que estamos andando em círculos. As situações mudam de forma, mas não mudam de essência; os relacionamentos se repetem; as crises retornam com novas faces; e o mesmo cansaço interior reaparece quando aparentemente estamos fazendo tudo certo.
Quando isso ocorre, a tendência é culpar a falta de disciplina, a falta de força, o passado, os outros — ou até acreditar que “a vida é assim mesmo”. Mas a Ontoanálise revela algo completamente diferente: não é a vida que se repete, é o psíquico que nos mantém presos nas mesmas estruturas internas.
É justamente por isso que tantas pessoas se perguntam como sair dos ciclos de sofrimento. Estas pessoas normalmente não percebem que a resposta não está no mundo externo, mas no eixo interior que as guia.
O psíquico repete. O ser transcende.
Uma das grandes contribuições da Ontoanálise é a separação clara entre duas instâncias:
- o psíquico, que reage, repete, se defende, produz sintomas e tenta evitar dor;
- o Eu Ontológico, que observa, direciona, transcende e organiza a existência.
Enquanto o psíquico funciona como uma máquina antiga, programada por experiências anteriores, o Eu Ontológico é a dimensão mais profunda do ser — aquela que não se confunde com pensamentos, emoções, defesas ou medos.
Quando a vida entra em repetição, não é o Eu Ontológico que está aprisionado, mas o psíquico que está tomando decisões em seu lugar.
O sofrimento se repete porque nasce da mesma estrutura
A maior parte das dores que vivemos não surge de fatos novos, mas de padrões antigos que continuam ativos, e sequer são percebidos. A pessoa muda de emprego, mas encontra o mesmo tipo de conflito. Sai de um relacionamento e entra em outro com a mesma dinâmica. Troca de ambiente, mas carrega a mesma sensação de inadequação ou inferioridade.
Isso ocorre porque o psíquico lê o mundo sempre com a mesma lente. Ele interpreta, filtra, reage — tudo guiado por estruturas internas que não foram reorganizadas. Assim, mesmo com boas intenções, o indivíduo acaba vivendo dentro de um mesmo destino emocional.
É exatamente nesse ponto que compreender como sair dos ciclos de sofrimento se torna urgente, porque nada muda fora enquanto a estrutura interna continuar igual.
Quando o Eu Ontológico desperta, o padrão perde força
A mudança real acontece quando a pessoa deixa de viver exclusivamente a partir de suas reações internas e passa a viver a partir do Eu Ontológico. Esse movimento não é místico nem abstrato — ele é profundamente prático.
O Eu Ontológico desperta quando você:
- observa sua experiência sem se confundir com ela,
- percebe o padrão enquanto ele se forma,
- entende o que a mente está tentando evitar,
- deixa de lutar contra a emoção e passa a compreendê-la.
Nesse ponto, o ciclo enfraquece, porque ele só se sustenta quando você entra no automático. A consciência rompe o automatismo. O ser rompe a repetição.
Por que o Eu Ontológico tem poder sobre a mente?
Porque ele não está condicionado aos mecanismos de defesa, às memórias passadas ou às narrativas internas. Ele é a instância que vê, compreende e dirige — sem se perder no ruído psíquico.
Enquanto a mente tenta controlar, o Eu Ontológico organiza. Se a mente cria medo, o Eu Ontológico produz clareza. Enquanto a mente repete, o Eu Ontológico transcende. Essa diferença muda tudo. É ela que permite compreender por que tantas pessoas passam anos tentando corrigir comportamentos, sem perceber que o comportamento é apenas a superfície do que realmente precisa ser transformado.
O nível do Eu Ontológico é o único onde mudanças profundas e estáveis acontecem.
O fim do ciclo começa com um deslocamento interno
A saída dos ciclos não é uma grande virada emocional, mas um deslocamento de posição interior. Quando você deixa de agir a partir da reação e começa a agir a partir da consciência, o sofrimento perde sua capacidade de se repetir.
Esse movimento pode ser resumido assim:
- ver o padrão sem culpa,
- entender o que o psíquico está tentando proteger,
- assumir a direção a partir do ser.
Depois desse resumo, o que realmente transforma é a forma como você passa a se mover por dentro. Aos poucos, você deixa de reagir automaticamente e começa a conduzir a própria experiência com mais lucidez. É nesse ponto que a mente perde o comando e você retoma a direção. E, quando isso acontece, torna-se evidente que o sofrimento não é destino, mas apenas o reflexo de uma estrutura que operava sem consciência.
E é nesse exato momento que fica claro como sair dos ciclos de sofrimento: deslocando o centro da vida do psíquico para o Eu Ontológico.
Conclusão: quando o ser assume o centro, o ciclo se desfaz
No fim, não é a vida que prende alguém aos mesmos caminhos — é o modo como a pessoa se relaciona consigo mesma. Enquanto o psíquico conduz, a repetição parece inevitável. Mas, quando o Eu Ontológico assume o centro, o movimento interno muda, e a vida acompanha essa mudança. Aos poucos, escolhas ganham lucidez, emoções encontram lugar e o sofrimento perde a força de se repetir.
Sair do ciclo não exige rupturas drásticas, mas um novo posicionamento interior.
Dr. Caldas – Fundador da Ontoanálise
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Leitura externa:
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