Existe um fenômeno silencioso que poucos conseguem nomear: quando a vida começa a dar certo, algo dentro parece desandar. O reconhecimento chega, as oportunidades surgem, a estabilidade aumenta — e, paradoxalmente, a pessoa começa a se perder.
Decisões incoerentes aparecem. Conflitos desnecessários surgem. A energia cai. O foco se dispersa. É nesse ponto que muitos se perguntam por que, justamente após o sucesso, passam a sabotar a própria trajetória.
Para Ontoanálise, o sucesso pode ativar mecanismos de autodestruição quando a estrutura interna não está preparada para sustentar expansão.
O sucesso amplia o que já existe dentro
Enquanto a vida está difícil, o esforço é direcionado à sobrevivência. Quando ela começa a prosperar, as estruturas internas ficam expostas. O sucesso amplia responsabilidades, visibilidade, autonomia e expectativas — e nem todo psíquico suporta essa ampliação.
É nesse contexto que surge a autossabotagem após o sucesso: atrasos recorrentes, conflitos evitáveis, procrastinação, escolhas impulsivas ou um cansaço inexplicável. Não se trata de falta de competência, mas de um desalinhamento estrutural.
O medo não é do fracasso — é da expansão
Ao contrário do senso comum, muitas pessoas não têm medo de errar. Elas têm medo do que o sucesso exige: assumir autoridade, sustentar autonomia, abandonar identidades antigas baseadas na escassez ou na dependência.
Quando o psíquico está organizado para sobreviver, crescer gera tensão. O sucesso ameaça o equilíbrio conhecido. A autodestruição surge como uma tentativa inconsciente de retornar indicar um território familiar, ainda que doloroso.
Quando o controle substitui a direção
Outro ponto crítico é o excesso de controle. Controlar resultados, imagem, desempenho, expectativas alheias. Esse estado de vigilância constante consome energia psíquica e gera rigidez interna.
A pessoa deixa de fluir e passa a se vigiar. O corpo acusa. A mente pesa. A clareza diminui. Assim, a autossabotagem após o sucesso não acontece por incapacidade, mas por excesso de tensão interna.
Autodestruição como mecanismo de defesa
Na Ontoanálise, a autodestruição não é vista como fraqueza moral, mas como um mecanismo defensivo extremo. Quando o psíquico não consegue reorganizar-se para sustentar o novo nível de vida, ele cria crises artificiais para reduzir a pressão da expansão.
Conflitos surgem, problemas se multiplicam e o foco se perde — tudo para diminuir inconscientemente o crescimento que está sendo vivido.
O papel do Ser na sustentação do sucesso
É o Ser — e não o psíquico reativo — que sustenta expansão sem colapso. O Ser não se intimida com crescimento, não precisa sabotar para se sentir seguro. Ele organiza, direciona e estabiliza.
Quando a vida é conduzida a partir do Ser, o sucesso deixa de ser ameaça e passa a ser consequência natural de um funcionamento interno alinhado.
Conclusão: crescer exige estrutura, não apenas desejo
Desejar sucesso é fácil. Sustentá-lo é outra história. O sucesso só se torna destrutivo quando encontra uma estrutura interna despreparada. Quando há reorganização, a expansão deixa de ativar defesas e passa a ampliar a vida.
O verdadeiro sucesso não é o que você alcança, mas aquele que você consegue habitar sem se perder.
Dr. Caldas – Fundador da Ontoanálise
