Organizamos a vida por prazos, horários, agendas e demandas externas. O dia começa com compromissos, termina com pendências e, no meio disso tudo, pouco espaço sobra para perceber como estamos vivendo o próprio tempo.
Compreendemos que grande parte do sofrimento contemporâneo não vem do excesso de atividades, mas da ruptura entre dois tempos distintos: o tempo social, que organiza o mundo, e o tempo vivido, que organiza o ser. Quando esses dois tempos se desencontram, a vida continua funcionando — mas a pessoa deixa de se reconhecer nela.
Este texto não é sobre desacelerar o mundo.
É sobre recolocar o ser como referência de ritmo.
Tempo social vs tempo vivido
O tempo social é mensurável, fragmentado e padronizado. Ele organiza compromissos, metas, entregas e produtividade. É um tempo necessário para a vida coletiva, mas insuficiente para sustentar a vida interior.
O tempo vivido, por outro lado, não se mede em horas, mas em presença. Ele se manifesta na forma como o sujeito atravessa a experiência: com sentido, coerência e continuidade interna.
O problema surge quando o tempo social se impõe como único parâmetro. Nesse cenário, a pessoa passa a viver em função do relógio, e não da própria percepção. Faz-se muito, mas sente-se pouco. Cumpre-se tudo, mas não se habita nada.
Quando o tempo vivido é ignorado, a vida continua andando — mas o ser já não acompanha.
Quando a vida vira “resposta ao mundo”
Um dos sinais mais claros da perda de eixo é quando a existência se transforma em uma sequência de respostas automáticas ao ambiente. Mensagens geram reações, demandas geram adaptações, urgências geram decisões apressadas.
Nesse modo de funcionamento, a vida deixa de ser escolhida e passa a ser respondida.
A pessoa já não age a partir de critério interno, mas reage ao que aparece. Não há intervalo suficiente para perceber o que se sente, o que se pensa ou o que se deseja. O mundo dita o ritmo; o sujeito apenas acompanha.
Essa inversão gera um esgotamento específico: não é o cansaço do excesso, mas o desgaste de não se reconhecer no próprio movimento. Tudo é feito, mas nada é integrado.
Quando a vida se torna apenas resposta ao mundo, o ser se afasta silenciosamente.
O ser como fonte de ritmo
Na Ontoanálise, o ser não é apenas identidade, é fonte de ritmo. É a instância que organiza tempo, sentido e direção. Quando o ser está no comando, a vida flui com coerência, mesmo em meio a desafios e responsabilidades.
O ser não vive em pressa. Ele sustenta continuidade.
Não acelera por ansiedade, nem paralisa por medo.
Quando o ritmo nasce do ser, as ações encontram medida. O dia pode ser cheio, mas não fragmentado. As decisões podem ser difíceis, mas não impulsivas. O trabalho pode exigir esforço, mas não rouba a presença.
Perder o contato com o ser é perder o compasso interno. E sem compasso, qualquer tempo se torna opressor, mesmo quando aparentemente organizado.
Reencaixe: critério + intervalo
Reencaixar tempo interno e tempo social não exige fuga do mundo, mas reposicionamento interno. Esse reencaixe acontece a partir de dois movimentos fundamentais: critério e intervalo.
Critério é a capacidade de hierarquizar o que importa.
Sem critério, tudo parece urgente. Com critério, o essencial se destaca.
Intervalo é o espaço entre estímulo e ação.
É nele que o ser reaparece, reorganiza a experiência e devolve direção.
Quando critério e intervalo são restaurados, o tempo social deixa de esmagar o tempo vivido. O sujeito volta a habitar o próprio dia, em vez de apenas atravessá-lo.
Não se trata de fazer menos, mas de voltar a fazer a partir do centro.
Conclusão — o ser não perde tempo, perde-se quando não é ouvido
O maior risco da vida contemporânea não é a falta de tempo, mas a ausência de si no tempo que se vive. Quando o tempo social domina sem mediação, o ser se retrai — e a existência segue em modo automático.
Recolocar o ser como fonte de ritmo não desacelera a vida. Ela devolve coerência, presença e integração. O tempo não precisa ser combatido. Precisa ser habitado.
E isso só acontece quando o ser volta a ocupar o lugar de onde o ritmo nasce.
Dr. Caldas – Fundador da Ontoanálise
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