O Cansaço Que Nasce da Tentativa de Controlar Tudo

Existe um tipo de cansaço que não vem do excesso de tarefas, nem da falta de descanso. Ele nasce de algo mais silencioso e persistente: a tentativa contínua de controlar tudo ao redor, pessoas, resultados, processos, emoções e até o tempo.

Esse cansaço não aparece de imediato. Ele se instala aos poucos, à medida que a vida passa a ser vivida como um campo de vigilância constante. A mente não descansa porque está sempre antecipando, corrigindo, prevenindo e ajustando. O corpo acompanha esse estado com tensão, rigidez e alerta permanente.

Na Ontoanálise, compreendemos o controle excessivo não como força, mas como defesa psíquica. E toda defesa prolongada cobra um preço.

Controle como defesa psíquica

O impulso de controlar não nasce do desejo de dominar, mas do medo de perder o eixo. Quando o indivíduo sente que o mundo é instável, imprevisível ou ameaçador, a mente assume o comando tentando garantir segurança absoluta.

Controlar passa a significar:

  • evitar surpresas,
  • reduzir riscos,
  • antecipar falhas,
  • impedir erros,
  • manter tudo “sob domínio”.

O problema é que a vida não responde bem a esse tipo de tentativa, pois quanto mais se tenta controlar tudo, mais a mente se afasta da confiança básica no fluxo da existência. O controle deixa de ser estratégia pontual e se transforma em modo de funcionamento.

Nesse ponto, o sujeito já não percebe que está tenso, ele apenas chama isso de “responsabilidade”.

O custo invisível: rigidez, vigilância e tensão

Manter tudo sob controle exige um estado interno rígido. A mente permanece em alerta, observando sinais, corrigindo desvios e antecipando cenários. Não há relaxamento real, pois relaxar passa a ser visto como risco.

Contudo, esse estado produz efeitos claros:

  • rigidez emocional,
  • dificuldade de delegar,
  • tensão corporal constante,
  • irritação diante do imprevisto,
  • exaustão sem causa aparente.

O corpo sente primeiro. Ombros contraídos, respiração curta, dificuldade de desligar, sono superficial. O organismo entende que está em território inseguro, mesmo quando nada de concreto está acontecendo.

O cansaço não vem do fazer, mas vem do vigiar.

Critério: o que controlar e o que soltar

O erro não está em controlar, mas em tentar controlar tudo. A Ontoanálise não propõe abandono, passividade ou negligência, mas propõe critério. Há coisas que pedem direção consciente, e outras que pedem soltura.

Controlar o que é interno é saudável:

  • suas escolhas,
  • sua postura,
  • seus limites,
  • sua forma de responder.

Tentar controlar o que é externo gera desgaste:

  • reações dos outros,
  • resultados absolutos,
  • reconhecimento,
  • fluxo do tempo,
  • imprevistos da vida.

Quando o critério se perde, a mente tenta compensar assumindo tudo. E isso cria uma sobrecarga estrutural impossível de sustentar por muito tempo.

Autonomia não é controle total

Existe uma confusão comum entre autonomia e controle. Muitos acreditam que ser autônomo é garantir que nada saia do planejado. Mas autonomia real não é domínio absoluto, é capacidade de responder com lucidez ao que acontece.

Portanto, quem tenta controlar tudo se torna refém da própria vigilância. Por outro lado, quem desenvolve autonomia interna:

  • aceita o imprevisto sem colapsar,
  • ajusta o rumo sem rigidez,
  • sustenta decisões sem precisar garantir tudo,
  • confia mais no próprio eixo do que nas circunstâncias.

Autonomia nasce quando o ser assume o comando e a mente deixa de operar apenas na defesa. Logo, o controle deixa de ser necessidade e passa a ser escolha consciente, usada apenas quando realmente faz sentido.

Conclusão — quando soltar devolve energia

O cansaço que nasce da tentativa de controlar tudo não se resolve com descanso físico, pois ele se resolve com reorganização interna. Quando a mente deixa de vigiar o mundo inteiro, algo se solta por dentro, ou seja, a respiração aprofunda, o corpo responde e a energia retorna.

Por fim… soltar não é perder poder. É recuperar presença.

A vida não exige controle absoluto, mas eixo interno. Quando o eixo está firme, o controle excessivo se torna desnecessário. E o cansaço, que parecia inevitável, revela sua verdadeira origem: não o excesso de vida, mas a falta de confiança no próprio centro.

Dr. Caldas — Fundador da Ontoanálise

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