Quando a Alta Performance Vira Automatismo Sofisticado

Durante muito tempo, alta performance foi associada a esforço consciente, presença e decisão. Produzir bem significava estar envolvido, atento e conectado ao que se fazia. No entanto, em muitos contextos atuais, a alta performance deixou de ser expressão de presença e passou a funcionar como um automatismo sofisticado.

A pessoa faz muito, entrega resultados, mantém consistência e cumpre expectativas. Ainda assim, algo essencial se perde no processo. O agir continua eficiente, mas o ser deixa de participar.

Quando a alta performance vira automatismo, ela se mantém por repetição, não por escolha. E é nesse ponto que o custo invisível começa a se acumular.

Fazer muito sem presença

É possível fazer muito sem estar presente. O corpo executa, a mente responde, os prazos são cumpridos. No entanto, a experiência interna se torna cada vez mais distante do que está sendo realizado.

Nesse estado, a pessoa não decide mais a partir do centro, apenas responde às demandas que chegam. O fazer segue, mas a presença se dilui. A vida se organiza em torno da produção, não da experiência.

Sob a perspectiva da Ontoanálise, isso indica uma dissociação sutil: o agir se autonomiza, enquanto o ser se retira.

Reação travestida de eficiência

Quando a presença diminui, a reação assume o comando. No entanto, essa reação não aparece como descontrole. Ela se apresenta como eficiência.

A pessoa reage rápido, resolve problemas, antecipa demandas e mantém tudo funcionando. Externamente, parece maturidade e competência. Internamente, é apenas resposta automática a estímulos constantes.

A eficiência, nesse caso, não nasce de critério, mas de condicionamento. É reação travestida de desempenho.

Corpo obediente, ser ausente

Um dos sinais mais claros do automatismo sofisticado é a obediência do corpo. O corpo acorda, trabalha, produz e sustenta longas jornadas, mesmo quando o sentido já se perdeu.

O ser, por outro lado, se ausenta. Não há envolvimento real, apenas continuidade. O corpo aguenta, mas o eixo se fragiliza. Com o tempo, surgem cansaço profundo, irritabilidade difusa e sensação de esvaziamento.

Esse afastamento não acontece por escolha consciente. Ele se instala como adaptação prolongada.

O custo invisível do automático

O maior custo do automatismo não é imediato. Ele não aparece como falha nem como colapso repentino. Surge como desgaste contínuo, silencioso e normalizado.

A pessoa continua funcionando, mas perde a capacidade de sentir satisfação real. Nada parece suficiente. O descanso não recupera. O sucesso não preenche.

Esse é o preço da alta performance quando ela deixa de ser expressão de presença e passa a ser apenas repetição eficiente.

Presença como reordenação do agir

A saída não está em produzir menos, mas em reordenar o agir a partir da presença. Presença não é lentidão nem introspecção excessiva. É participação real do ser no que se faz.

Quando a presença retorna, o fazer deixa de ser automático. O critério reaparece. Algumas demandas perdem importância. Outras passam a ser sustentadas com mais sentido.

Na Ontoanálise, presença é o que devolve eixo ao agir. Não elimina a performance, mas impede que ela se transforme em automatismo vazio.

Conclusão

A alta performance vira automatismo sofisticado quando o fazer se desconecta do ser. O resultado permanece, mas o custo interno cresce.

Recuperar a presença não é abandonar a produção, mas reintegrar o ser ao agir. É esse movimento que devolve sentido, critério e sustentabilidade ao desempenho.

Dr. Caldas – Fundador da Ontoanálise

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