Vivemos em uma época em que alta performance virou sinônimo de controle absoluto. Controlar o tempo, as emoções, os resultados e até as próprias reações passou a ser visto como sinal de maturidade, competência e força. Quanto mais alguém parece “dar conta de tudo”, mais é admirado.
O problema é que esse modelo de performance cobra um preço silencioso. Ele entrega resultados, sustenta reconhecimento e mantém a imagem de eficiência, mas faz isso às custas de tensão interna constante. Com o tempo, o cansaço aparece, mesmo quando tudo parece estar funcionando.
Controle como defesa psíquica
Na maioria das vezes, o controle não nasce apenas da organização ou da disciplina. Ele surge como uma forma de proteção. Controlar tudo reduz a sensação de risco, evita surpresas e cria a ilusão de segurança.
Quando o controle se torna excessivo, ele deixa de ser ferramenta e vira estrutura. A pessoa passa a viver em estado de correção permanente, antecipando problemas, revisando decisões e tentando prever cada passo. Parar começa a parecer perigoso, pois significa perder domínio.
Externamente, isso é confundido com força. Internamente, gera rigidez e desgaste contínuo.
Vigilância constante e tensão interna
Manter tudo sob controle exige vigilância permanente. A mente permanece ativa mesmo quando não há urgência real. O corpo não relaxa por completo porque está sempre preparado para responder.
Esse estado de prontidão contínua cria tensão interna. O descanso se torna superficial, o silêncio incomoda e a sensação de estar sempre “ligado” passa a ser normalizada.
Com o tempo, a pessoa funciona, entrega e performa, mas sente que nunca desliga de verdade. O custo do controle é viver em alerta constante.
Performance sem confiança
A alta performance baseada em controle excessivo raramente se apoia em confiança. Ela se sustenta no medo de falhar, de perder o controle ou de ser surpreendido.
Quando não há confiança, tudo precisa ser supervisionado. Delegar se torna difícil. Confiar no processo parece arriscado. A pessoa sente que, se relaxar, algo vai desandar.
O resultado é uma performance mantida à força. Ela funciona por um período, mas consome energia de forma contínua. O sucesso vem acompanhado de ansiedade silenciosa e cansaço acumulado.
Critério: o que sustentar e o que soltar
O amadurecimento não está em controlar mais, mas em desenvolver critério. Nem tudo precisa ser sustentado. Nem tudo exige vigilância constante.
Critério é saber:
- o que realmente exige presença;
- o que pode ser compartilhado;
- o que já cumpriu sua função;
- o que pode ser solto sem prejuízo real.
Sem critério, o controle se espalha para tudo. Com critério, a energia se concentra no que importa.
Autonomia não é controle total
Existe uma confusão comum entre autonomia e controle absoluto. Autonomia não é dominar tudo, mas confiar na própria capacidade de responder quando necessário.
Quando a autonomia está presente, o controle deixa de ser defesa e volta a ser ferramenta. A pessoa sustenta o que precisa ser sustentado e solta o que não exige atenção constante.
A alta performance que se sustenta no tempo nasce dessa confiança, não da vigilância contínua.
Conclusão
A alta performance baseada em controle excessivo sempre gera esgotamento porque exige tensão constante. Ela entrega resultados, mas cobra energia demais para se manter.
O verdadeiro avanço não está em controlar tudo, mas em precisar controlar menos. Quando o controle deixa de ser defesa, a performance deixa de ser peso e passa a ser consequência.
Dr. Caldas – Fundador da Ontoanálise
