Durante muito tempo, o burnout foi explicado como resultado de excesso de trabalho, falta de descanso ou sobrecarga emocional. No entanto, a prática clínica e a Ontoanálise revelam algo mais profundo: muitas pessoas entram em burnout quando ainda têm energia, mas já perderam o sentido.
É por isso que o burnout não surge, necessariamente, com queda imediata de desempenho. Pelo contrário, ele costuma aparecer em pessoas produtivas, comprometidas e responsáveis, justamente aquelas que continuam fazendo, mesmo quando já não sabem mais por quê.
O colapso não é físico, é ontológico.
Fazer sem “pra quê”: o início silencioso do burnout
Um dos primeiros sinais de burnout no trabalho é a execução automática. A pessoa faz, entrega, cumpre, resolve, mas sem envolvimento interno. O fazer se desconecta do ser.
Quando o “pra quê” desaparece, a atividade perde valor simbólico e passa a ser apenas obrigação. É nesse ponto que surgem sintomas de burnout cada vez mais comuns e buscados:
- esgotamento emocional constante,
- sensação de vazio mesmo sendo produtivo,
- irritabilidade frequente,
- perda de entusiasmo pelo trabalho,
- sensação de estar apenas “funcionando”.
Esses sintomas não indicam fraqueza emocional. Indicam desalinhamento entre o fazer e o ser.
Energia sem direção também gera esgotamento
Existe um equívoco perigoso na cultura da produtividade: acreditar que ter energia é, por si só, sinal de saúde. Na realidade, energia sem direção produz desgaste psíquico.
Quando o trabalho não expressa mais sentido, a energia passa a ser consumida em compensações: controle excessivo, cobrança interna, perfeccionismo, medo de parar. O indivíduo segue ativo, mas internamente fragmentado.
Na Ontoanálise, compreendemos que o aparelho psíquico pode sustentar longos períodos de funcionamento mesmo quando o Eu Ontológico já não reconhece sentido naquele caminho. É justamente isso que torna o burnout tão silencioso e devastador.
O vazio produtivo: um dos principais sintomas de burnout hoje
O vazio produtivo é o estado em que a pessoa produz muito, entrega resultados e ainda assim sente um vazio crescente. Nada satisfaz ou preenche. Nada parece suficiente.
Esse vazio costuma ser descrito assim:
- “Trabalho muito, mas me sinto vazio”
- “Tenho tudo para estar bem, mas não sinto sentido”
- “Produzo, mas não me reconheço no que faço”
Essas falas são manifestações claras de burnout emocional. O problema não é a carga de trabalho, mas a ruptura do sentido existencial.
Burnout como crise de sentido, não como falha pessoal
Na perspectiva da Ontoanálise, o burnout não é falha individual, fraqueza emocional ou incapacidade profissional. Ele é o colapso de um modelo de vida baseado apenas no fazer.
Quando o sentido se rompe, o organismo entra em estado de alerta prolongado. A mente tenta compensar com mais esforço. O corpo responde com sintomas: cansaço extremo no trabalho, ansiedade, distanciamento emocional e, em muitos casos, sintomas psicossomáticos.
Por isso, tratar burnout apenas com descanso ou afastamento temporário costuma ser insuficiente. Enquanto o eixo interno não for reorganizado, o retorno ao trabalho tende a reativar o mesmo colapso.
O deslocamento necessário: do fazer para o ser
Superar o burnout exige mais do que recuperar energia. Exige reconstruir sentido. Isso implica perguntas que raramente são feitas em ambientes corporativos, mas são centrais na Ontoanálise:
- Para quê estou fazendo o que faço?
- O que ainda me move, e o que apenas me pressiona?
- Onde perdi o vínculo com aquilo que fazia sentido?
Essas perguntas não visam respostas rápidas. Elas produzem um deslocamento ontológico: retiram o indivíduo do automático e o reconectam ao Eu Ontológico, a instância capaz de dirigir a vida com consciência.
Quando o sentido retorna, a energia se reorganiza
Curiosamente, quando o sentido volta, a energia retorna sem imposição. O cansaço diminui, a mente clareia e o trabalho deixa de ser um peso constante.
Isso não significa abandonar responsabilidades, mas reposicionar o lugar de onde se vive e se produz. Onde há sentido, há sustentação. Onde não há, qualquer esforço se torna excessivo.
Na Ontoanálise, a sustentação da vida não nasce da exaustão, mas do alinhamento entre ser e ação.
Conclusão: burnout é um sinal, não um fracasso
O burnout não é o colapso da capacidade, é o colapso do sentido. Ele surge quando o fazer continua, mas o ser já não está mais presente. Quando a vida se transforma em produção contínua, sem espaço para reconhecimento interno.
Ler o burnout apenas como doença é perder sua mensagem mais importante. Ele é um sinal claro de que algo precisa ser reorganizado no nível mais profundo da existência. E é exatamente nesse ponto que a Ontoanálise atua: não para devolver apenas energia, mas para restaurar o sentido.
Dr. Caldas – Fundador da Ontoanálise
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