Há um tipo de esgotamento que não começa no corpo, mas na identidade. Ele surge quando a pessoa deixa de se perceber como alguém que exerce uma função e passa a existir apenas a partir dela. Nesse ponto, o trabalho já não é uma atividade, é o lugar onde o valor pessoal tenta se sustentar.
Esse é um dos terrenos mais silenciosos do burnout: quando a vida interior se estreita ao desempenho, e tudo o que não produz parece não existir.
A Ontoanálise observa esse fenômeno não como falha individual, mas como um deslocamento estrutural do ser.
Existir só no que faz
Quando a identidade se organiza exclusivamente em torno do fazer, a existência fica condicionada ao resultado. A pergunta implícita deixa de ser “quem eu sou?” e passa a ser “o que eu entrego hoje?”. Nesse estado, o descanso gera desconforto, o erro ameaça a autoestima e qualquer pausa parece perda de sentido. A pessoa não sente que tem uma função, sente que é a função.
O problema não é o envolvimento com o trabalho, mas a ausência de outras referências internas de identidade. Quando tudo o que sustenta o valor pessoal está concentrado em uma única área, o sistema psíquico entra em tensão permanente.
Valor pessoal × desempenho
Um dos equívocos mais comuns nas estruturas contemporâneas é confundir valor com performance. O desempenho passa a funcionar como medida de existência: render é sinônimo de valer.
Esse mecanismo cria um ciclo perigoso. Quanto mais a pessoa entrega, mais precisa entregar para continuar se sentindo válida. O esforço deixa de ser escolha e vira condição de pertencimento.
Nesse ponto, o burnout não surge por excesso de tarefas, mas por excesso de dependência simbólica do desempenho. A identidade fica refém do resultado.
A Ontoanálise compreende esse processo como uma inversão: o fazer, que deveria servir ao ser, passa a comandá-lo.
A fusão “eu sou minha função”
Quando o “eu” se confunde com o papel exercido, qualquer instabilidade externa se transforma em ameaça interna. Logo, mudanças, críticas ou limites passam a ser vividos como ataques à própria existência.
Essa fusão cria rigidez, medo de falhar e dificuldade de receber ajuda. A pessoa sente que, se parar, desmorona, não porque o trabalho exige, mas porque a identidade não tem outro apoio.
É nesse ponto que o esgotamento se aprofunda. O corpo começa a sinalizar limites, a motivação se esvazia e o sentido se fragiliza. Ainda assim, a pessoa continua funcionando, porque não sabe quem é fora da função.
Separar o ser do papel
Separar ser de papel não significa abandonar responsabilidades, mas restaurar a hierarquia interna correta. O papel é uma expressão do ser, não sua definição.
Quando essa separação acontece, algo se reorganiza: o trabalho volta a ser lugar de atuação, não de sobrevivência psíquica. O erro deixa de ser ameaça existencial, e a pausa deixa de parecer abandono.
Essa distinção protege a identidade, reduz a pressão interna e devolve critério. O indivíduo pode continuar atuando com excelência, mas sem precisar se destruir para se sustentar.
Na Ontoanálise, esse movimento é visto como maturidade estrutural: quando o ser volta a ocupar o centro, e o fazer encontra seu lugar adequado.
Conclusão
O burnout, nesse contexto, não é apenas cansaço, é um alerta de que a identidade foi estreitada demais. Quando alguém vira apenas a função que exerce, a vida perde amplitude e o sistema interno entra em colapso silencioso.
Recuperar-se não começa reduzindo tarefas, mas ampliando o lugar do ser. Quando a identidade deixa de depender exclusivamente do desempenho, o trabalho se reorganiza, o corpo respira e o sentido retorna.
Ninguém sustenta viver apenas como função. E reconhecer isso não é fraqueza, mas sim lucidez.
Dr. Caldas – Fundador da Ontoanálise
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