Há um erro recorrente na forma como o burnout é compreendido: a ideia de que ele surge porque a pessoa “gastou energia demais”. Por isso, a solução proposta quase sempre é descanso, férias, pausas ou redução de tarefas. Embora essas medidas possam aliviar sintomas, elas raramente resolvem o problema na raiz.
Na Ontoanálise, o burnout não é interpretado como um colapso energético, mas como um deslocamento ontológico. A pessoa não está apenas cansada, ela está fora do próprio centro. E quando o centro se perde, nenhuma quantidade de descanso é suficiente para restaurar o equilíbrio.
Quando descansar não resolve
Um dos sinais mais claros de que o burnout não é apenas físico é este:
a pessoa descansa, mas não se recupera.
Ela tira folga, dorme mais, reduz o ritmo e, ainda assim, sente um cansaço difuso, uma falta de vitalidade que não se explica pelo corpo. Isso acontece porque o descanso atua sobre o sistema, mas não reconecta o sujeito ao eixo interno que organiza a vida.
Quando o centro está perdido, o descanso vira apenas interrupção mecânica entre dois esforços. O corpo até para, mas o ser não retorna. A mente continua girando, a identidade segue presa à função, e a sensação de esgotamento permanece.
O burnout começa exatamente quando a pessoa já não consegue repousar dentro de si.
O que é perder o centro interno
Perder o centro não significa perder o controle das tarefas, nem falhar externamente. Muitas pessoas em burnout continuam funcionando, entregam resultados, cumprem prazos, mantêm responsabilidades. O que se perde não é a capacidade de fazer, mas o lugar interno a partir do qual se faz.
O centro é o ponto de coerência entre:
- o que a pessoa sente,
- o que ela pensa,
- o que ela faz,
- e o sentido que sustenta tudo isso.
Quando esse eixo se rompe, a vida passa a ser organizada por exigências externas, expectativas alheias, urgências contínuas ou medo de falhar. A ação continua, mas já não nasce da presença, nasce da pressão.
Na Ontoanálise, esse estado é identificado como descentralização do ser: o sujeito age, mas já não habita a própria ação.
Fazer sem eixo não é fazer demais
Um dos maiores equívocos contemporâneos é associar burnout a excesso de tarefas. O que adoece não é a quantidade de fazer, mas a ausência de eixo no fazer.
É possível realizar muito sem se esgotar quando a ação está alinhada ao centro interno. E é possível colapsar fazendo pouco, quando cada gesto exige esforço psíquico para sustentar uma identidade que já não se reconhece naquele papel.
Fazer sem eixo exige:
- vigilância constante,
- autocontrole excessivo,
- adaptação contínua,
- supressão de sinais internos.
Esse esforço invisível consome mais energia do que o trabalho em si. Por isso, pessoas em burnout frequentemente dizem: “não é o que faço que cansa, é ter que continuar assim”.
O esgotamento não vem do movimento, vem da desalinhamento entre ação e ser.
Quando o centro se perde, o corpo colapsa
O corpo não adoece por fraqueza. Ele adoece por coerência. Quando o sujeito permanece por tempo demais fora do próprio centro, o organismo assume a função de limite.
É nesse ponto que surgem:
- fadiga persistente,
- dores difusas,
- dificuldade de concentração,
- irritabilidade,
- sensação de vazio ou desconexão,
- perda de prazer no que antes fazia sentido.
O colapso não é punição, é correção.
O corpo interrompe aquilo que a consciência não conseguiu reorganizar.
Na Ontoanálise, entendemos o burnout como uma resposta inteligente do sistema à perda de eixo. O corpo sinaliza: não é possível continuar vivendo a partir desse lugar deslocado.
Burnout como deslocamento ontológico
Ontologicamente, o burnout indica que o sujeito foi retirado do centro da própria existência e passou a viver orbitando funções, demandas ou expectativas. Ele já não se organiza a partir do ser, mas a partir da necessidade de sustentar algo fora de si.
Por isso, a pergunta fundamental não é:
“como recuperar energia?”
Mas:
“de onde eu estou vivendo?”
Enquanto essa pergunta não é enfrentada, qualquer tentativa de recuperação será parcial. A energia até retorna por momentos, mas volta a se dissipar, porque o eixo permanece ausente.
Recuperar o centro precede recuperar a energia.
Quando o centro retorna, a vitalidade se reorganiza naturalmente.
Conclusão
O burnout não pede mais força, mais esforço ou mais resistência. Ele pede recentralização.
Ele surge quando a vida deixa de ser vivida a partir do ser e passa a ser sustentada apenas pela estrutura. E nenhuma estrutura, por mais eficiente que seja, consegue substituir o centro por muito tempo.
Na Ontoanálise, o caminho de saída do burnout não começa com fazer menos, mas com voltar para si — para o ponto onde ação, sentido e presença voltam a coincidir.
Quando o centro retorna, o corpo responde, a mente desacelera e a energia deixa de ser um recurso escasso. Não porque o mundo ficou mais leve, mas porque o sujeito voltou a habitar o próprio lugar na vida.
Burnout não é falta de energia.
É perda de centro.
Dr. Caldas – Fundador da Ontoanálise
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