Muitos casos de Burnout surgem quando a vida deixa de oferecer critérios claros e tudo passa a exigir decisão, resposta e posicionamento constante. O sujeito não para porque não sabe o que pode parar, nem avança com clareza porque perdeu a hierarquia interna do que realmente importa. A mente permanece em esforço contínuo, tentando sustentar escolhas que deveriam emergir naturalmente de um eixo interno.
Nesse ponto, o burnout não aparece como colapso imediato, mas como desgaste progressivo. A vida segue funcionando, mas sem hierarquia, sem ritmo e sem centro. O indivíduo não está apenas cansado, está desorientado internamente.
Compreendemos esse estado como perda de critério interno: quando tudo exige resposta, mas nada oferece direção.
O cansaço de decidir tudo
Decidir exige energia psíquica. Quando cada pequena escolha se torna pesada, desde tarefas simples até decisões maiores, algo se organiza internamente. A mente assume responsabilidades que não deveriam estar todas no mesmo nível.
Tudo parece urgente:
- mensagens,
- demandas,
- expectativas,
- problemas alheios,
- pressões difusas.
O sujeito vive reagindo, não realiza escolhas. A sensação é de estar sempre “apagando incêndios”, sem nunca chegar ao essencial. Esse estado produz um cansaço profundo, porque não há pausa cognitiva nem clareza estrutural.
O burnout, nesse contexto, não surge por excesso de trabalho, mas por excesso de decisões sem critério.
O que é critério interno
Critério interno não é rigidez, nem controle absoluto, mas sim, a capacidade de distinguir o que é essencial do que é acessório; o que pede ação do que pede espera; o que é, de fato, urgente do que apenas parece aparenta ser urgente.
Quando o critério interno está ativo:
- nem tudo exige resposta imediata,
- nem tudo é problema,
- nem tudo é prioridade.
O ser organiza antes da mente executar. Há um eixo que orienta escolhas sem esforço excessivo. NO entanto, quando esse critério se perde, a mente tenta compensar assumindo tudo ao mesmo tempo. O resultado é dispersão, fadiga e sensação constante de atraso.
Perder o critério interno é perder a hierarquia da vida.
Urgência como falha de consciência
A urgência contínua é um dos sinais mais claros de falha de consciência. Não porque existam problemas reais, mas porque tudo passa a ser vivido como emergência.
Nesse sentido:
- o corpo vive em alerta,
- a respiração encurta,
- o pensamento acelera,
- a presença desaparece.
A urgência não é apenas externa; mas ela se instala como modo interno de funcionamento. A mente já não distingue o que precisa ser feito agora do que pode aguardar, pois tudo exige reação.
Na Ontoanálise, entendemos que a urgência permanente não é produtividade, é desorganização da consciência. Quando o eixo interno se rompe, a vida perde ritmo e o burnout encontra terreno fértil.
Clareza como proteção energética
Clareza protege mais do que descanso. Quando há clareza, a energia deixa de se dispersar. O corpo responde melhor, a mente desacelera e o esforço se torna proporcional.
Clareza significa:
- saber o que importa,
- aceitar o que pode esperar,
- reconhecer limites reais,
- sustentar escolhas sem culpa.
Ela não elimina desafios, mas impede o esgotamento desnecessário. Onde há clareza, há economia psíquica. Onde não há, tudo custa caro demais. Recuperar o critério interno não é fazer menos por preguiça, mas fazer melhor por consciência.
Conclusão — quando o eixo volta, o cansaço diminui
O burnout não é apenas excesso de trabalho. Muitas vezes, é excesso de desorganização interna. Quando a vida perde critério, tudo pesa. Quando o critério retorna, o peso diminui, mesmo que as tarefas permaneçam.
Portanto, a vida não pede que você decida tudo o tempo todo. Ela pede que você reconecte-se ao eixo que organiza as decisões, pois onde há critério interno, há ritmo. Onde há ritmo, há sustentação. E onde há sustentação, o burnout deixa de avançar.
Dr. Caldas – Fundador da Ontoanálise
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Leitura externa:
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