Quando existir exige esforço demais
Há um tipo de cansaço emocional que não vem do excesso de tarefas, mas do excesso de adaptação. A pessoa não está apenas vivendo. Está se moldando o tempo todo. Ajusta o tom, regula o comportamento, filtra o que sente e escolhe cuidadosamente o que pode ou não aparecer.
Esse esforço contínuo é o que, chamamos de sustentação de personagens.
O personagem não surge por vaidade. Ele surge como proteção. Uma forma de pertencer, evitar rejeição, manter posição ou sobreviver em determinados contextos. O problema começa quando esse personagem deixa de ser circunstancial e passa a ser permanente.
Nesse ponto, existir deixa de ser espontâneo e passa a ser trabalhoso.
O esforço invisível de viver de aparência
Viver de aparência cobra um preço psíquico alto. Fingir estar bem quando não está, sustentar uma imagem coerente enquanto o mundo interno está em tensão, responder como se espera e não como se sente. Tudo isso exige vigilância constante.
Com o tempo, o corpo e a mente começam a sinalizar.
Os sintomas mais comuns incluem, por exemplo:
cansaço emocional frequente,
irritação sem motivo claro,
tensão corporal constante,
dificuldade de relaxar mesmo em repouso,
sensação de vazio mesmo com rotina cheia.
Esses sinais não indicam falta de gratidão, fraqueza emocional ou desorganização pessoal. Indicam desgaste por “fingir demais”.
Por que fingir cansa tanto?
Fingir não é apenas mentir. É sustentar um estado emocional que não corresponde ao que está sendo vivido internamente. Isso cria uma fricção contínua entre o ser e a persona.
A irritação surge porque a energia é usada para conter. O vazio aparece porque a vida está ocupada por papéis, funções e expectativas, mas desconectada de verdade interna.
Na prática clínica, é comum ouvir frases como, por exemplo:
“parece que estou sempre atuando”,
“não consigo ser eu mesmo”,
“não sei mais quem eu sou fora do papel que desempenho‘.
Estas falas revelam o cansaço de sustentar uma máscara social por tempo demais.
Autenticidade não é exposição. É economia psíquica
Existe a ideia equivocada de que ser autêntico significa se expor totalmente ou romper com tudo. Na Ontoanálise, autenticidade é compreendida de forma mais precisa: autenticidade é economia psíquica. É parar de gastar energia mantendo o que não é essencial. É alinhar ação e ser o suficiente para que a vida deixe de exigir contenção constante.
Quando isso acontece, algo muda silenciosamente: a tensão diminui, a irritação perde força, o cansaço emocional se atenua.
Não porque a vida ficou mais fácil, mas porque deixou de haver um personagem drenando energia o tempo todo.
O medo de tirar a máscara
Muitos mantêm personagens por medo. Medo de rejeição, de conflito, de perder espaço, de não pertencer. A máscara funciona como proteção. Ainda que custosa, ela parece segura. Por isso, reduzir a máscara de forma abrupta pode gerar instabilidade. A Ontoanálise não propõe rupturas violentas, mas reduções conscientes.
A pergunta central não é quem eu sou de verdade, mas onde estou me forçando além do necessário.
Essa pergunta devolve critério e evita colapsos.
Como reduzir a máscara sem romper com tudo
Reduzir personagens não exige confrontos dramáticos. Exige ajustes progressivos e sustentáveis.
Alguns movimentos simples ajudam nesse processo, como por exemplo:
diminuir explicações excessivas,
permitir silêncios sem culpa,
sustentar pequenos limites sem justificar demais,
observar quando a irritação surge como sinal de excesso de adaptação,
Esses gestos não afastam o sujeito do mundo, mas reorganizam o vínculo consigo mesmo.
Na Ontoanálise, esse processo marca a transição do viver representado para o viver sustentado.
Quando o ser reassume o centro
À medida que a necessidade de fingir diminui, algo se reorganiza internamente. Ou seja, a mente desacelera, o corpo relaxa e as decisões se tornam mais simples.
O cansaço emocional diminui não porque a rotina mudou, mas porque deixou de haver um personagem ocupando o centro da vida. Neste ponto, o sujeito não abandona seus papéis, apenas deixa de se perder neles.
Conclusão
Por fim, o cansaço de sustentar personagens não é falha de caráter nem falta de força. É o resultado de uma vida vivida em excesso de adaptação e escassez de eixo interno.
Na Ontoanálise, não se trata de eliminar a persona, mas de retirá-la do comando. Quando o ser reassume o centro, a vida passa a exigir menos esforço, menos contenção e menos fingimento.
Ser não cansa. O que cansa é fingir ser quem não se é.
Dr. Caldas – Fundador da Ontoanálise
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