Todo mundo sabe reconhecer um erro externo: a decisão precipitada, o atraso, o medo que congela, a fuga na hora decisiva. Mas quase ninguém percebe a força interna que cria essas repetições.
Na Ontoanálise, chamamos essa força de inferioridade psíquica — uma sensação profunda de “não ser suficiente”, que opera muito antes do pensamento consciente.
Esse sentimento não é uma emoção comum. Ele funciona como uma estrutura silenciosa, moldando comportamentos, distorcendo percepções e criando uma espécie de gravidade interior que puxa a pessoa para baixo sempre que ela tenta subir. E é por isso que a inferioridade é a raiz oculta da autossabotagem contínua.
Inferioridade não é fraqueza: é uma marca humana universal
Diferente do que muitos imaginam, inferioridade não nasce apenas de traumas ou comparações sociais. Ela está presente em todos nós desde a infância. É uma resposta natural da psique que percebe o mundo maior, mais complexo e mais forte do que a própria capacidade inicial de lidar com ele.
A criança descobre cedo sua pequenez. O adulto tenta esconder. Mas o psiquismo não esquece. E é neste ponto que a inferioridade se torna perigosa: ela não some com o amadurecimento, apenas muda de forma. O adulto passa a maquiar inferioridade com:
- exigência excessiva,
- hiperprodutividade,
- evitação,
- irritabilidade,
- ou uma postura de “não preciso de ninguém”.
Tudo isso para não encarar o núcleo que dói.
Quando a inferioridade ocupa o centro, a vida vira defesa
A inferioridade cria um tipo de lente que distorce tudo. Cada desafio vira ameaça. Oportunidade vira risco. E crítica vira ataque pessoal. A pessoa não reage ao fato real, ela reage ao fato interno.
É o ser tentando avançar, e o psíquico puxando para trás.
Nesse conflito silencioso, nascem os comportamentos que chamamos de autossabotagem:
- abandonar projetos perto do sucesso,
- procrastinar exatamente o que mais importa,
- entrar em relações que diminuem,
- esconder talentos,
- aceitar menos,
- temer o elogio,
- autoafirmação,
- fugir quando chega a possibilidade concreta de crescer.
Nada disso acontece por falta de força. Mas acontece porque, no fundo “você não tão capaz assim.”
Mais uma vez, a inferioridade é a raiz oculta da autossabotagem contínua.
Por que a inferioridade cria ciclos?
Porque ela funciona como um motor psíquico repetitivo. O aparelho mental tenta proteger o indivíduo de frustrações futuras, mas acaba aprisionando-o em padrões antigos. Ao evitar situações em que “possa falhar”, a pessoa evita justamente as situações em que poderia crescer.
O medo de rejeição faz escolher parceiros inseguros. O medo de errar faz evitar oportunidades de destaque. Igualmente, o medo de não ser suficiente faz carregar pesos que não são seus.
A vida se torna pequena para não confrontar o desconforto.
A visão da Ontoanálise: o Ser acima do psiquismo
A Ontoanálise rompe o paradigma tradicional porque não trata a inferioridade como uma sentença psicológica. Para nós, o psiquismo não define a identidade — ele apenas expressa o estado atual do ser.
Isso significa que:
- não estamos presos ao que sentimos,
- não somos definidos pelos medos,
- não somos condenados às repetições,
- e não precisamos negociar com a inferioridade.
Quando o ser assume o comando, o psiquismo se reorganiza. Portanto, é aqui que a verdadeira virada acontece. A inferioridade deixa de ser centro, pois se torna ferramenta de leitura. O medo deixa de paralisar, pois passa a ser sinal de expansão. A autossabotagem deixa de repetir, pois vira convite para ajuste interno.
Novamente percebemos por que a inferioridade é a raiz oculta da autossabotagem contínua: ela tenta proteger, mas sem o ser no comando, ela apenas limita.
Como superar a inferioridade?
A superação da inferioridade não é um combate psicológico, mas um reposicionamento do ser. Logo, quando você se desloca de observador passivo para protagonista interior, a inferioridade perde força.
Portanto, há três movimentos práticos:
1. Ver sem julgamento
Inferioridade vive no escuro. Logo, quando você a enxerga com clareza, ela enfraquece.
2. Expor-se de forma paulatina
A exposição gradual reorganiza o psiquismo. É a coragem pequena, mas diária, que desarma a defesa.
3. Ação como afirmação do ser
O movimento externo confirma o movimento interno, porque a cada pequena vitória, a mente aprende que você suporta mais do que imaginava.
Nenhum desses passos é mágico. Mas todos são transformadores quando feitos com consciência.
Conclusão: inferioridade não é destino, é ponto de partida
O que chamamos de inferioridade é, na verdade, apenas um estado psíquico desalinhado. Quando o ser assume a direção, o mundo interno deixa de ser inimigo e se torna aliado.
A autossabotagem perde força.
A repetição perde sentido.
A vida começa a andar.
Enfim, pela primeira vez, você percebe que nunca faltou capacidade — faltou consciência.
Dr. Caldas – Fundador da Ontoanálise
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