A cultura das metas sempre existiu. Em alguns momentos, ela impulsiona; em outros, sufoca. Nos últimos anos, porém, a pressão por resultados se tornou mais intensa e constante, ao ponto de ultrapassar o campo técnico e entrar no âmbito emocional. Não estamos mais falando apenas de produtividade. Estamos falando do peso invisível que altera o humor de equipes, paralisa colaboradores, distorce ritmos naturais e transforma o ambiente de trabalho em um espaço de tensão contínua.
É aqui que a nova NR-1 ganha relevância. Ao exigir que empresas avaliem riscos psicossociais, a norma toca em um ponto que raramente é enfrentado com honestidade: a ansiedade organizacional. E não há ansiedade mais disseminada e menos discutida do que aquela gerada por metas irreais, urgências constantes e expectativas que não consideram a dimensão humana do trabalho.
Metas e ansiedade: a parte da NR-1 que ninguém enxerga
A NR-1 não fala apenas de assédio ou sobrecarga. Ela fala sobre “formas de organização do trabalho” que geram sofrimento. E isso inclui:
- metas que mudam semanalmente,
- prazos incompatíveis com a estrutura,
- cobranças desproporcionais,
- jornadas emocionalmente exaustivas,
- e a sensação de que nada é suficiente.
Esses fatores, quando analisados pela Ontoanálise, não são apenas disfunções administrativas, mas sim expressões da ansiedade coletiva da empresa. Ou seja, uma ansiedade que nasce da sua própria desorganização interna e se espalha como corrente elétrica pelo ambiente.
A saúde mental no trabalho precisa incluir a saúde emocional das metas — porque não são apenas as pessoas que adoecem, mas também as expectativas que as moldam.
O excesso como sintoma: quando a meta revela a empresa
Há metas que iluminam, outras que denunciam. Metas equilibradas revelam clareza, organização e consciência da realidade. Metas impossíveis revelam ruídos profundos, como por exemplo:
- falta de visão,
- perda de ritmo,
- desconexão da liderança,
- ausência de planejamento,
- tentativa de compensar desordens internas com exigências externas.
Quando a meta é incoerente com os recursos disponíveis, ela deixa de ser um objetivo e se torna um sintoma. Pela Ontoanálise, o excesso nunca é mera coincidência, mas sim, uma expressão do que a estrutura não quer ver. A meta irreal é, muitas vezes, a tentativa inconsciente da organização tentar provar um valor que ela não possui — ou de disfarçar um conflito que não consegue resolver. Portanto, metas, neste contexto, deixam de conduzir e passam a ferir.
Ansiedade organizacional: quando o campo trabalha contra a própria equipe
A ansiedade não nasce somente no indivíduo, mas a partir do ambiente. Pois ambientes ansiosos produzem pessoas ansiosas. E uma organização ansiosa é aquela onde:
- tudo é urgente, mesmo quando não é;
- ninguém sabe priorizar;
- mudanças acontecem sem preparação;
- a pressa substitui a consciência;
- decisões são tomadas em modo reativo;
- erros são tratados como falhas morais;
- e a comunicação se torna tensa, curta, fragmentada.
Esse campo emocional — denso, acelerado, inflamado — gera sintomas em cadeia:
- queda de criatividade,
- medo de inovar,
- hiper-responsabilidade,
- esgotamento progressivo,
- conflitos silenciosos,
- afastamentos,
- rotatividade.
Quando a NR-1 fala de riscos psicossociais, não se trata apenas de proteger trabalhadores, mas de revelar a estrutura emocional que a empresa produz.
Qual o papel do líder?
Toda liderança cria campo. Algumas organizam; outras desorganizam. Líderes ansiosos geram metas ansiosas. Líderes centrados geram segurança.
O problema é que, em ambientes acelerados, líderes acabam cedendo à pressão e reproduzindo a urgência como modo de gestão. Sem perceber, tornam-se amplificadores da ansiedade institucional, pois:
- antecipam demandas,
- cobram mais do que a estrutura suporta,
- transmitem sua inquietação às equipes,
- confundem pressa com eficiência,
- mantêm todos em estado de alerta constante.
A NR-1, ao trazer a saúde mental para o campo da responsabilidade organizacional, coloca também a liderança sob um novo paradigma, porque não basta administrar metas; é preciso administrar o campo emocional das metas.
Portanto, a saúde mental no trabalho precisa ser entendida também como saúde emocional da liderança.
Quando a meta deixa de motivar e passa a adoecer
Portanto, metas adoecem quando desconsideram o tempo real do processo, ignoram limitações humanas, nascem de comparações externas, surgem de pressões hierárquicas mal elaboradas, são usadas para “provar” valor em vez de gerar resultado. Quando isso acontece, o corpo responde antes da mente:
- insônia,
- tensão muscular,
- irritabilidade,
- dificuldade de foco,
- sensação de inadequação,
- medo constante de errar.
O corpo fala o que a empresa não escuta.
A NR-1 como convocação para uma nova forma de trabalhar
A NR-1 não é um incômodo burocrático, mas sim um convite à maturidade emocional das organizações. Ela nos lembra que metas não são apenas números, mas mensagens. E que indicadores não são neutros, pois carregam afetos, expectativas e tensões.
A norma obriga empresas a olhar para o impacto emocional da forma como trabalham. Porém a Ontoanálise vai além: mostra que a ansiedade organizacional é uma tentativa da estrutura de reencontrar seu ritmo natural.
Logo, a saúde mental no trabalho precisa ser construída a partir de metas conscientes, ritmos humanos e lideranças presentes.
Conclusão — A meta que pesa revela a empresa que sofre
Por fim, quando uma meta pesa mais do que deveria, ela não está dizendo algo sobre a equipe. Está dizendo algo sobre a empresa. A NR-1 apenas tornou visível o que já estava lá, ou seja, a ansiedade coletiva que se esconde atrás da produtividade. A Ontoanálise, por sua vez, ajuda a interpretar esse sintoma — não como falha, mas como linguagem, como convite, como chamado para reorganização.
O que adoece não são as metas, mas sim, a desconexão entre o que a empresa exige e o que ela é capaz de sustentar. Metas humanas não são metas menores. São metas mais verdadeiras — e, por isso mesmo, mais sustentáveis.
Dr. Caldas – Fundador da Ontoanálise
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Leitura externa:
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