Durante muito tempo, o sofrimento no trabalho foi tratado como um problema do indivíduo. Falta de resiliência, fragilidade emocional, dificuldade de adaptação. A empresa observava, avaliava e, quando necessário, substituía. O sistema permanecia intocado.
A NR-1 rompe esse paradigma de forma silenciosa, mas decisiva. Ao exigir a avaliação de riscos psicossociais, ela desloca o foco do indivíduo para a estrutura organizacional. A pergunta deixa de ser “quem está adoecendo?” e passa a ser “o que adoece as pessoas?”.
Esse deslocamento é profundo, pois para a Ontoanálise, ele revela algo ainda mais essencial: as empresas também possuem uma estrutura emocional própria.
Organizações também têm psiquismo
Embora não sejam organismos biológicos, organizações funcionam como sistemas vivos. Elas possuem ritmos, defesas, medos, compulsões e padrões repetitivos. O que muda é que esse psiquismo não aparece em sonhos ou sintomas corporais diretos — ele aparece em metas, prazos, discursos e modos de cobrança.
Quando uma empresa está emocionalmente organizada, suas decisões têm coerência. Há ritmo, previsibilidade e clareza. Quando está desorganizada, surge a ansiedade estrutural: excesso de urgência, instabilidade de critérios, pressão constante e sensação de que nada é suficiente.
A NR-1 toca exatamente nesse ponto, ainda que não use essa linguagem.
Quando o sofrimento é sistêmico, não individual
Um dos maiores equívocos na gestão do adoecimento é tentar resolvê-lo individualmente. Oferecem-se palestras, treinamentos pontuais ou benefícios isolados, enquanto a estrutura que gera tensão permanece intacta.
Na Ontoanálise, isso é lido como deslocamento de responsabilidade. O sistema produz o excesso, mas o indivíduo é convocado a suportá-lo. A NR-1 rompe essa lógica ao reconhecer que:
- a forma de organizar o trabalho pode gerar sofrimento;
- a pressão contínua é um risco;
- o ritmo imposto também adoece.
Ou seja, o adoecimento deixa de ser exceção e passa a ser consequência previsível de determinadas estruturas.
A ansiedade como linguagem da empresa
A ansiedade organizacional não surge porque as pessoas são frágeis. Ela surge quando o sistema perde a capacidade de sustentar o que exige.
Metas incoerentes, mudanças constantes, decisões reativas e cobranças desproporcionais não são apenas falhas de gestão. São sintomas emocionais da organização.
O excesso sempre denuncia algo que não está sendo elaborado. Quando a empresa acelera demais, cobra demais ou exige além do possível, muitas vezes compensa inseguranças internas, falta de direção ou conflitos não resolvidos na liderança. A NR-1 obriga as empresas a escutar esse sintoma.
O líder como ponto de condensação emocional
Toda organização condensa suas tensões na liderança. O líder funciona como ponto de transmissão do estado emocional da empresa. Quando ele está desorganizado internamente, a equipe sente. Quando está centrado, o campo se estabiliza.
Ambientes ansiosos não surgem por acaso. Eles são construídos, repetidos e sustentados. E, frequentemente, líderes acabam reproduzindo pressões que eles próprios não conseguem elaborar.
A NR-1, ao responsabilizar a empresa pelo campo emocional que produz, convoca também a liderança a um novo nível de consciência: não basta entregar resultados; é preciso sustentar a estrutura emocional que permite esses resultados.
Saúde mental como coerência estrutural
A grande contribuição da NR-1 não está em criar mais um protocolo, mas em forçar uma pergunta incômoda: o modo como trabalhamos é coerente com aquilo que exigimos?
Saúde mental, nesse contexto, deixa de ser ausência de afastamentos ou diagnósticos clínicos, pois ela passa a ser medida pela coerência entre:
- metas e recursos,
- ritmo e capacidade humana,
- exigência e sustentação,
- discurso e prática.
Quando essa coerência não existe, o sofrimento aparece, inevitavelmente.
A Ontoanálise como leitura aprofundada da NR-1
A NR-1 aponta o sintoma. A Ontoanálise ajuda a interpretá-lo. Não como falha moral, mas como linguagem da estrutura.
Onde há ansiedade coletiva, há desorganização interna. Onde há adoecimento recorrente, há algo que precisa ser reorganizado — não nas pessoas, mas no modo de conduzir o trabalho.
Metas conscientes, lideranças presentes e estruturas emocionalmente organizadas não são concessões humanitárias, mas sim, condições de sustentabilidade.
Conclusão — O que a NR-1 realmente nos obriga a enxergar
A NR-1 não obriga empresas a cuidarem apenas das pessoas, mas obriga as empresas a cuidarem de si mesmas. Da sua forma de decidir, de exigir, de conduzir e de sustentar.
Quando o adoecimento se torna coletivo, o problema já não é individual. É estrutural. E estruturas só se reorganizam quando são reconhecidas.
Por fim, a Ontoanálise não suaviza essa constatação, ela a aprofunda. Porque só há verdadeira saúde no trabalho quando a empresa deixa de exigir mais do que é capaz de sustentar.
Dr. Caldas – Fundador da Ontoanálise
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O Peso Invisível das Metas: Quando a NR-1 Expõe a Ansiedade Organizacional
Saúde Mental no Trabalho e NR-1: Como os Riscos Psicossociais Revelam os Conflitos do Ser?
Leitura externa:
NR-1 e Saúde Mental: Quando o Desgaste Deixa de Ser Normal
NR-1: Sete Sinais Físicos de Que Seu Trabalho Está Te Adoecendo
