Muitas pessoas não se sentem perdidas no sentido clássico da palavra. Elas trabalham, decidem, resolvem problemas e seguem funcionando. Ainda assim, convivem com uma sensação persistente de confusão interna. Não é falta de informação, nem ausência de capacidade. É justamente aí que surge a pergunta que atravessa silenciosamente o cotidiano de muita gente: por que é tão difícil ter clareza, mesmo quando se faz tanto esforço para decidir bem?
Sob a perspectiva da Ontoanálise, essa dificuldade não nasce da falta de inteligência ou de vontade, mas de um contexto interno saturado, no qual o barulho ocupa o espaço que deveria ser da consciência. Quando estímulos demais disputam atenção ao mesmo tempo, o critério se fragiliza e a decisão perde densidade.
Clareza não surge no barulho. Portanto, insistir em decidir dentro dele, gera mais reação, não lucidez.
Por que o barulho produz falsa ação?
O barulho cria a impressão de movimento produtivo. Quando tudo exige resposta, agir parece necessário o tempo todo. Decisões rápidas, posicionamentos imediatos e soluções instantâneas dão a sensação de controle. No entanto, esse movimento constante raramente produz clareza real.
Em ambientes barulhentos, a ação costuma surgir para aliviar a pressão do momento, não para sustentar uma direção. Assim, muitas pessoas agem, mas decidem pouco. Respondem rápido, mas realizam más escolhas.
É nesse ponto que a dificuldade de ter clareza se intensifica. O excesso de estímulos empurra o sujeito para a reação automática. Em vez de decidir, ele apenas responde. Em vez de escolher, ele se adapta.
Clareza como estrutura: critério, tempo e pausa
Na Ontoanálise, clareza não é rapidez de pensamento nem certeza emocional. Ela é uma estrutura que depende de três elementos inseparáveis: critério, tempo e pausa.
O critério permite diferenciar o essencial do acessório. Sem ele, tudo parece igualmente importante. Com ele, o excesso perde força e a percepção se organiza.
O tempo é necessário porque nem toda decisão se revela de imediato. A pressa empobrece o julgamento e distorce a leitura da realidade. Muitas vezes, é a ausência de tempo interno que explica por que é tão difícil ter clareza.
A pausa, por sua vez, não é inatividade. É suspensão da reação automática. É o espaço onde o ser observa antes de agir. Onde não há pausa, não há clareza possível.
Decisão reativa e decisão lúcida
A decisão reativa nasce do desconforto. Ela surge para eliminar ansiedade, encerrar pressão ou atender expectativas externas. Embora resolva algo no curto prazo, costuma gerar novas tensões logo adiante. Já a decisão lúcida nasce da presença. Ela não elimina toda dúvida, mas sustenta coerência interna. Em vez de reagir ao barulho, o sujeito age a partir do que consegue sustentar.
A diferença entre essas duas formas de decidir não está na inteligência, mas na posição interna. Quando o ser está ausente, a reação domina. Quando o ser está presente, a decisão ganha densidade.
Por isso, muitas pessoas decidem muito e se arrependem com frequência. Não porque escolhem sempre mal, mas porque escolhem sem nitidez suficiente.
O custo invisível do excesso de resposta
Responder a tudo consome energia psíquica. Explicar tudo, decidir tudo e resolver tudo, exige vigilância constante. Com o tempo, surge o esgotamento decisório, a confusão mental e a sensação de perda de direção.
Esse estado costuma ser interpretado como falha pessoal. Entretanto, na Ontoanálise, ele é compreendido como sintoma de um sistema interno sobrecarregado por estímulos não filtrados.
Quando não há pausa, o ser não consegue se reorganizar. E sem reorganização, a clareza não se sustenta. O barulho passa a comandar o agir.
Como recuperar clareza?
Recuperar clareza não exige grandes rupturas externas. Na maioria das vezes, começa por ajustes internos simples, porém consistentes.
- Primeiro, é necessário reduzir o volume de estímulos decisórios. Nem tudo precisa de resposta imediata. Nem tudo exige posicionamento constante.
- Em seguida, é fundamental reaprender a sustentar pausas. Não como fuga, mas como método. Pausar antes de responder devolve critério ao agir.
- Além disso, é preciso tolerar o desconforto inicial de não agir. Pois o barulho perde força quando deixa de ser atendido automaticamente.
Por fim, recuperar nitidez exige uma mudança de postura: agir menos para decidir melhor. Quando a ação deixa de ser reação, a clareza encontra espaço para surgir.
Conclusão
A pergunta “Por que é tão difícil ter clareza?” não aponta para incapacidade individual, mas para um modo de funcionamento saturado por estímulos e respostas automáticas. Onde há barulho contínuo, não há espaço para discernimento.
Clareza não nasce da aceleração nem do acúmulo de informação. Ela emerge quando o ser pode sustentar critério, tempo e pausa. A Ontoanálise não propõe silêncio artificial, mas nitidez estrutural.
Quando o barulho perde o comando, a consciência recupera o centro. E é deste lugar que a clareza, finalmente, pode surgir.
Dr. Caldas – Fundador da Ontoanálise
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