Há pessoas que chegam a um ponto da vida em que tudo parece estar no lugar. O trabalho segue, as responsabilidades são cumpridas, as relações continuam funcionando e as demandas do dia a dia são atendidas. Ainda assim, surge uma sensação incômoda e persistente: algo está errado por dentro.
Não se trata de tristeza evidente nem de um colapso emocional. É mais sutil. Uma espécie de vazio silencioso, acompanhado da pergunta que raramente é dita em voz alta: por que me sinto perdido, mesmo com tudo funcionando?
Sob o olhar da Ontoanálise, essa experiência não é contraditória. Pelo contrário. Ela revela uma dissociação entre o funcionamento externo e a organização interna do ser. A vida segue, mas o sujeito já não está inteiro nela.
Quando a vida segue sem presença
É possível viver sem estar presente. A rotina acontece, as decisões são tomadas quase automaticamente e os dias passam sem grandes rupturas. Entretanto, internamente, algo se afasta.
Nesse estado, a pessoa não está exatamente em sofrimento agudo. Também não está em plenitude. Ela apenas funciona. Executa. Responde. Resolve. Porém, não se reconhece mais naquilo que faz.
A presença, na Ontoanálise, não é entendida como intensidade emocional nem como entusiasmo constante. Presença é eixo. É o ser habitando a própria vida. Quando esse eixo se perde, a vida continua, mas passa a ser sustentada apenas pelo aparelho psíquico, não pelo ser.
Assim, a sensação de estar perdido surge não porque tudo desmoronou, mas porque tudo continua sem que o sujeito esteja verdadeiramente ali.
A distância interna que não tem nome
Um dos aspectos mais difíceis dessa experiência é que ela não tem nome imediato. Não é depressão clássica, nem ansiedade evidente, nem crise externa. Ainda assim, há uma distância crescente entre a pessoa e ela mesma.
Essa distância interna se manifesta de formas discretas: dificuldade de sentir satisfação, sensação de estranhamento diante da própria rotina, perda de interesse por coisas que antes faziam sentido e um cansaço que não se explica apenas pelo esforço físico ou mental.
Na Ontoanálise, isso é lido como sinal de fragmentação. O ser deixa de ocupar o centro, e o funcionamento passa a ser sustentado por adaptações psíquicas, defesas e automatismos.
Quando o ser se afasta, a vida não para. Mas perde densidade.
O custo de viver no automático
Viver no automático tem um custo alto, embora pouco visível no início. A pessoa segue produzindo, se relacionando e cumprindo expectativas, mas, internamente, paga com esvaziamento.
Com o tempo, surgem sintomas claros:
- sensação de não pertencimento à própria vida,
- cansaço existencial sem causa objetiva,
- dificuldade de sentir sentido nas conquistas,
- irritação difusa ou apatia,
- necessidade constante de distração,
- sensação de estar “vivendo errado”, sem saber por quê.
Esse desgaste não vem de excesso de problemas, mas da ausência de eixo. O sujeito não está em crise externa, mas em desalinhamento ontológico. Ele vive, mas não se habita.
Presença não é intensidade, é eixo
Um erro comum é tentar resolver essa sensação buscando mais estímulo, mais emoção ou mais movimento. Viagens, mudanças bruscas, novos projetos ou experiências intensas podem gerar alívio momentâneo, mas não resolvem o problema de fundo.
Presença não é intensidade. É eixo.
Na Ontoanálise, o eixo é o ponto interno a partir do qual o ser sustenta suas escolhas, ações e relações. Quando esse eixo se perde, nenhuma intensidade compensa. Quando ele retorna, até o simples volta a fazer sentido.
Por isso, a solução não está em agitar a vida, mas em reorganizar o interior. Não se trata de fazer mais, mas de recolocar o ser no comando.
Reaproximar-se de si sem ruptura
Reaproximar-se de si não exige ruptura com tudo o que foi construído. Não pede abandono da vida atual, nem decisões impulsivas. Pelo contrário. Exige um movimento mais sutil e profundo: recuperar a escuta interna.
Isso começa quando o sujeito para de se tratar apenas como alguém que precisa funcionar e passa a se reconhecer como alguém que precisa existir com coerência.
Na prática, isso envolve reconhecer tensões internas, identificar onde se vive apenas por obrigação e observar quais escolhas são mantidas por medo, hábito ou adaptação excessiva.
Esse processo não é rápido nem espetacular. Mas é real. E, sobretudo, é sustentado pelo ser, não por compensações psíquicas.
Quando a vida volta a fazer sentido
Quando o eixo interno começa a se reorganizar, algo muda silenciosamente. A vida não se transforma de fora para dentro. Ela se alinha de dentro para fora.
O vazio perde força. A sensação de estar perdido diminui. As escolhas ganham mais coerência. A presença retorna aos poucos, não como euforia, mas como solidez.
Na Ontoanálise, fazer sentido não é sentir prazer constante, mas habitar a própria vida com inteireza. É saber onde se está, mesmo quando não se tem todas as respostas.
Sentir-se perdido, mesmo com tudo funcionando, não é sinal de fraqueza nem de ingratidão. É um chamado do ser pedindo eixo. Quando esse chamado é ouvido, a vida não precisa ser reinventada. Ela apenas volta a ser habitada.
Conclusão
Sentir-se perdido mesmo com tudo funcionando não é incoerência, é sinal.
Sinal de que a vida seguiu operando enquanto o eixo interno se perdeu.
Quando o sujeito funciona apenas por fora, a consciência entra no automático. As tarefas continuam, os papéis são mantidos, mas o sentido não se sustenta. O problema não está no excesso de demandas, e sim na ausência de presença.
A Ontoanálise não trata esse estado como falta de propósito, mas como perda de eixo. Enquanto o ser não retorna ao centro, nenhuma mudança externa resolve.
Quando a consciência se reorganiza, o funcionamento deixa de ser vazio. A vida não precisa parar para fazer sentido. Precisa ser habitada.
Dr. Caldas – Fundador da Ontoanálise
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