Vivemos em uma cultura que confunde rapidez com eficiência. Responder rápido, decidir rápido, produzir rápido parece sinal de competência. No entanto, na prática clínica e ontológica, a pressa quase nunca indica clareza. Ela indica desorganização interna.
A pressa não nasce, necessariamente, de uma urgência real. Ela nasce quando a consciência perde o eixo e a mente assume o comando sem critério. Quando isso acontece, tudo parece precisar ser resolvido agora, mesmo aquilo que poderia esperar, amadurecer ou simplesmente ser sentido.
Na Ontoanálise, a pressa é compreendida não como um traço de personalidade, mas como um sintoma: um sinal de que algo dentro perdeu ordem, prioridade ou centro.
Pressa sem urgência: como ela nasce
Nem toda urgência é real. Muitas são construções internas. A pressa surge quando a pessoa sente que está sempre “atrasada”, mesmo sem saber exatamente em relação a quê.
Esse tipo de pressa nasce de estados como:
- medo de perder controle,
- dificuldade de sustentar o vazio entre uma ação e outra,
- ansiedade por resultado antes de compreensão,
- necessidade de resolver para aliviar desconforto interno.
Ou seja, a pressa não é causada pelo excesso de tarefas, mas pela incapacidade de permanecer consciente diante do que ainda não está resolvido. Quando o sujeito não tolera a espera, a dúvida ou o silêncio, ele acelera. E acelera não para avançar, mas para fugir do incômodo de sentir.
A pressa, nesse sentido, funciona como anestesia.
A mente acelera quando perde critério
A consciência organizada distingue o que é essencial do que é acessório. Ela hierarquiza, seleciona, decide com base em sentido. Quando essa organização se perde, a mente entra em hiperatividade.
Sem critério interno:
- tudo parece igualmente importante,
- tudo exige resposta imediata,
- tudo gera tensão.
A mente, então, tenta compensar a ausência de eixo com velocidade. Mas velocidade não cria critério. Apenas cria movimento.
Na Ontoanálise, chamamos isso de substituição do eixo pela urgência. A pessoa não sabe mais o que merece energia, então distribui energia em excesso. O resultado não é produtividade, é desgaste.
Quando a mente corre, geralmente é porque não sabe onde parar.
Os custos da pressa: erro, ruído e impulsividade
A pressa cobra um preço alto, ainda que silencioso. Entre os principais custos estão:
- Erro: decisões tomadas rápido demais ignoram nuances importantes. O que parece ganho de tempo vira retrabalho.
- Ruído: comunicação apressada gera mal-entendidos, conflitos desnecessários e desgaste relacional.
- Impulsividade: respostas sem elaboração emocional criam arrependimento, culpa e confusão posterior.
- Desgaste psíquico: o corpo entra em estado de alerta contínuo, mesmo sem ameaça real.
A pressa não acelera a vida, ela fragmenta a experiência. O sujeito faz muito, mas integra pouco. Age, mas não sustenta. Decide, mas não sente.
Com o tempo, essa fragmentação gera cansaço profundo, sensação de vazio e perda de sentido, terreno fértil para o burnout e para crises existenciais que não são compreendidas na origem.
Voltar ao eixo: presença e prioridade
Organizar a consciência não significa fazer menos, mas agir a partir do lugar certo. O retorno ao eixo acontece quando a pessoa recupera duas capacidades fundamentais: presença e prioridade.
Presença é estar inteiro no que se faz, sem antecipar o próximo passo como fuga. Prioridade é reconhecer que nem tudo precisa ser resolvido agora, e que algumas coisas só se resolvem quando são sentidas, não aceleradas.
Voltar ao eixo envolve:
- desacelerar a resposta para recuperar clareza,
- sustentar o silêncio antes da decisão,
- distinguir urgência real de ansiedade interna,
- permitir que o sentido venha antes da ação.
Quando a consciência retoma o comando, a pressa perde força. Não porque o mundo ficou mais lento, mas porque o interno se organizou.
Conclusão
A pressa não é sinal de eficiência. É sinal de desorganização da consciência. Sempre que tudo parece urgente, é preciso investigar o que perdeu prioridade dentro.
A Ontoanálise não propõe lentidão, mas lucidez. Não propõe parar a vida, mas recolocar o eixo. Quando o sujeito age a partir do centro, a ação ganha precisão, o corpo sai do alerta constante e a mente volta a servir, em vez de comandar.
Nem tudo que corre avança.
E nem tudo que desacelera perde tempo.
Às vezes, desacelerar é exatamente o que devolve direção.
Dr. Caldas (Fundador da Ontoanálise)
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